Continuando o post anterior: na prática nosso modelo de indústria cultural conduz a um contexto bem fraco do ponto de vista artístico. O que temos é um contexto que só dá abertura real para repetições de coisas que já deram certo (olha uma indústria como a de games ou a do cinema), favorece somente o que é fácil e imediato, e consequentemente poda criatividade e de forma geral enfraquece a cultura.
Outra coisa que é extremamente destrutiva na minha opinião é como a lei do copyright funciona. Sinceramente? Eu acho que copyright tem que existir só para evitar que eu pegue o cd dos Strokes, troque a capa e venda como se fosse um cd da minha banda ou se a música está explicitamente sendo usada para vender outra produto (por exemplo, num comercial de jeans). Fora isso, todas as outras aplicações de copyright para mim é frescura ou pior, GANÂNCIA.
Fala sério: porque se importar se uma banda gravou um cover de uma música sua no cd deles? Isso NÃO vai prejudicar as vendas da sua versão, muito provavelmente vai até ajudar. Porque ficar chorando se um cantor de hip hop sampleou um trecho de 5 segundos da sua música para usar na dele? Da mesma forma, isso NÃO vai prejudicar a sua versão. Maior grau de liberdade entre os artistas e suas obras enriquece e é legal para todo mundo.
Vários exemplos: o (ótimo) segundo cd dos Beastie Boys (Paul's Boutique) é frequentemente tido como exemplo de disco que NÃO poderia ser feito hoje. Tem tanto sampler de tanta coisa diferente que seria proibitivo em relação ao custo de licenciamento. Mesmo exemplo: (ótimo) primeiro disco do Go! Team teve que ser praticamente refeito quando eles deixaram de ser independentes. Uma banda massa como o Girl Talk é no fundo ilegal (só trabalha com samplers e mistura de músicas), eles não se importam mas vão acabar tomando ferro e acabando.
Acho isso DEPRÊ. Bons discos que NÃO PODEM existir para atender a essa lei de copyright ridícula e gananciosa.
Quer saber uma coisa milenar que se não existisse e se fosse proposta a sua criação hoje NUNCA ia ser aceito? Biblioteca. "O quê? As pessoas vão poder ler livros sem pagar para o autor? Que idéia é essa??"
É pensando em bibliotecas que eu baseio minha filosofia em relação a indústria cultural. Bibliotecas não prejudicam as editoras e são boas para a sociedade porque você não é obrigado a ter dinheiro para adquirir conhecimento. E quanto mais gente tiver mais conhecimento, melhor para a sociedade. Quanto mais gente tiver mais cultura com mais facilidade, melhor para a sociedade.
Por isso eu acho que gravadoras tem que morrer (e vão).
Um modelo ideal de indústria musical seria cada um grava o que quiser (sem pressão de gravadora para seguir uma direção comercial específica), cada um escuta o que quiser, com facilidade e sim, SEM PAGAR NADA.
Vai ferrar o artista? Não, porque ele já é ferrado pela gravadora. Quem faz grana com cds é gravadora, o percentual que vai para o artista é mínimo do mínimo. Talvez o modelo do In Rainbows seja o ideal - pague quanto quiser pelo download (inclusive não pague se for o caso) - mas você está dando dinheiro DIRETO para banda, sem intermediários. Eu acredito que o número de pessoas que não vão comprar o cd é compensado pelo número de pessoas adicional que nunca iriam ouvir sua banda e agora vão - isso vai te ajudar a longo prazo, quanto maior sua base de fãs maior a chance de fazer dinheiro de diversas maneiras.
Isso provoca pânico porque é mudança, é novo, e o instinto básico de todo mundo é não querer mudar. Se o download de músicas afetou mesmo a venda de cds é discutível (tem vários estudos contraditórios), mas tanto melhor se tiver afetado. Esse modelo "ideal" que eu descrevi acima não está distante - eu diria que já andou 70% do que tinha que andar e vai concluir quando as grandes gravadoras fecharem ou passarem a operar de maneira totalmente diferente de hoje (e mexerem na porcaria da lei do copyright).
E digo mais: faça tudo que puder para acelerar isso. No mínimo, não compre mais cds (pelo menos só compre os independentes).
Isso é motivo para comemorar.
O efeito prático: daqui a alguns anos teremos um ambiente cultural muito mais forte, rico e interessante para todo mundo. Estou sendo otimista mesmo! Tomara que EU não caia do telhado.
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sexta-feira, 20 de junho de 2008
quinta-feira, 19 de junho de 2008
As gravadoras subiram no telhado - parte 1/2
Tem anos - décadas - que as grandes gravadoras são uma espécie de satanás dos músicos, assim como os grandes estúdios são o satanás dos cineastas.
Hoje está nascendo outra relação com música que é extremamente desfavorável a elas e, ao meu ver, favorável aos artistas. Por isso digo "wooohooow" e apoio 100% qualquer ação que leve isso adiante e faça as gravadoras caírem do telhado logo.
Eu acho que dentro de 10 anos, pelo menos da forma que conhecemos, elas vão para o saco. E outras mídias vão seguir. E todo mundo vai sair ganhando.
O fato é, indústrias como essas operam em uma "área cinza" que é complicada por natureza - a interseção entre estar trabalhando com expressão, sentimentos, honestidade, ARTE, e a necessidade de fazer dinheiro. Como diz o Al Jourgesen, gravadoras são administradas por contadores de feijão, e não por pessoas que tem qualquer contexto artístico.
Isso significa que as gravadoras não se importam com a música que estão lançando. No fundo, gravadoras não tem NADA contra "arte" ou contra qualquer coisa que seja culturalmente/humanisticamente relevante: se vender, tá ótimo.
Acontece que, historicamente, tomaram o rumo mais óbvio e fácil de partir para o maior denominador comum. Não estou defendendo música "inteligente" ou "sofisticada" igual a maioria das pessoas cai quando argumenta sobre isso - mas estou defendendo música relevante, ou seja, por mais besta que seja (muitas vezes uma música só tem que divertir e só) que não seja a trilionésima repetição da mesma coisa, que tenha algum grau de criatividade e honestidade.
A relação entre criatividade e a facilidade de absorver a música costuma ser desfavorável porque o novo causa estranheza - então quanto mais manjado e "absorvível" a música mais pessoas vão gostar, pelo menos a curto prazo.
Some isso com o fato da maioria das gravadoras serem conservadoras e morrerem de medo de correr riscos e resultado: ligue o rádio e dê uma passeada pelas estações. Só isso. Entendeu?
Em defesa das gravadoras, se elas não querem falir precisam de fato ser conservadoras, porque o público é conservador. 99% das pessoas são zumbis culturais - não tem real interesse de se aprofundar em nada (aqui não estou falando só de música) a não ser o que tem impacto direto na sua vida - na maioria dos casos nem isso.
Ou seja, uma cidadão típico que trabalha com computação PODE se interessar por se aprofundar em Java (ou nem isso), mas está mais que satisfeito em ver só filmes que vai absorver com facilidade e esquecer meia hora depois, em não ler nada ou ler um livro por ano (também de fácil absorção e de preferência o mesmo que todo mundo está lendo), de ouvir só música igual e superficial que ele por acaso viu tocando no Faustão.
Para não cair na obviedade, registro aqui que, no fundo, na verdade não me importo com isso. Cada um tem a relação que quiser com cultura - e as pessoas que demandam algo mais profundo vão sentir falta em algum momento e acabar procurando sozinhas, independente do monopólio de poucas empresas na indústria cultural.
A gravadora vai colocar um disco do Capital Inicial que é uma merda mas vai vender para esses 99% ou vai apoiar um artista com mais conteúdo que vai agradar aos outros 1%?
Na verdade a gravadora poderia arriscar com os 1% se tivesse qualquer outro interesse além do foco em $ - para mim é a falha fundamental do capitalismo, o fato do dinheiro ser o ÚNICO e SOLITÁRIO estímulo para QUALQUER coisa acontecer - mas isso é outra discussão mais profunda ;-)
E às vezes arriscar funciona - prova é o fato de uma banda como o Radiohead que tem muitas tendências experimentais provocou colapso no sistema de telefonia da Austrália quando começou a vender ingressos para shows lá.
Hoje está nascendo outra relação com música que é extremamente desfavorável a elas e, ao meu ver, favorável aos artistas. Por isso digo "wooohooow" e apoio 100% qualquer ação que leve isso adiante e faça as gravadoras caírem do telhado logo.
Eu acho que dentro de 10 anos, pelo menos da forma que conhecemos, elas vão para o saco. E outras mídias vão seguir. E todo mundo vai sair ganhando.
O fato é, indústrias como essas operam em uma "área cinza" que é complicada por natureza - a interseção entre estar trabalhando com expressão, sentimentos, honestidade, ARTE, e a necessidade de fazer dinheiro. Como diz o Al Jourgesen, gravadoras são administradas por contadores de feijão, e não por pessoas que tem qualquer contexto artístico.
Isso significa que as gravadoras não se importam com a música que estão lançando. No fundo, gravadoras não tem NADA contra "arte" ou contra qualquer coisa que seja culturalmente/humanisticamente relevante: se vender, tá ótimo.
Acontece que, historicamente, tomaram o rumo mais óbvio e fácil de partir para o maior denominador comum. Não estou defendendo música "inteligente" ou "sofisticada" igual a maioria das pessoas cai quando argumenta sobre isso - mas estou defendendo música relevante, ou seja, por mais besta que seja (muitas vezes uma música só tem que divertir e só) que não seja a trilionésima repetição da mesma coisa, que tenha algum grau de criatividade e honestidade.
A relação entre criatividade e a facilidade de absorver a música costuma ser desfavorável porque o novo causa estranheza - então quanto mais manjado e "absorvível" a música mais pessoas vão gostar, pelo menos a curto prazo.
Some isso com o fato da maioria das gravadoras serem conservadoras e morrerem de medo de correr riscos e resultado: ligue o rádio e dê uma passeada pelas estações. Só isso. Entendeu?
Em defesa das gravadoras, se elas não querem falir precisam de fato ser conservadoras, porque o público é conservador. 99% das pessoas são zumbis culturais - não tem real interesse de se aprofundar em nada (aqui não estou falando só de música) a não ser o que tem impacto direto na sua vida - na maioria dos casos nem isso.
Ou seja, uma cidadão típico que trabalha com computação PODE se interessar por se aprofundar em Java (ou nem isso), mas está mais que satisfeito em ver só filmes que vai absorver com facilidade e esquecer meia hora depois, em não ler nada ou ler um livro por ano (também de fácil absorção e de preferência o mesmo que todo mundo está lendo), de ouvir só música igual e superficial que ele por acaso viu tocando no Faustão.
Para não cair na obviedade, registro aqui que, no fundo, na verdade não me importo com isso. Cada um tem a relação que quiser com cultura - e as pessoas que demandam algo mais profundo vão sentir falta em algum momento e acabar procurando sozinhas, independente do monopólio de poucas empresas na indústria cultural.
A gravadora vai colocar um disco do Capital Inicial que é uma merda mas vai vender para esses 99% ou vai apoiar um artista com mais conteúdo que vai agradar aos outros 1%?
Na verdade a gravadora poderia arriscar com os 1% se tivesse qualquer outro interesse além do foco em $ - para mim é a falha fundamental do capitalismo, o fato do dinheiro ser o ÚNICO e SOLITÁRIO estímulo para QUALQUER coisa acontecer - mas isso é outra discussão mais profunda ;-)
E às vezes arriscar funciona - prova é o fato de uma banda como o Radiohead que tem muitas tendências experimentais provocou colapso no sistema de telefonia da Austrália quando começou a vender ingressos para shows lá.
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