Tem anos - décadas - que as grandes gravadoras são uma espécie de satanás dos músicos, assim como os grandes estúdios são o satanás dos cineastas.
Hoje está nascendo outra relação com música que é extremamente desfavorável a elas e, ao meu ver, favorável aos artistas. Por isso digo "wooohooow" e apoio 100% qualquer ação que leve isso adiante e faça as gravadoras caírem do telhado logo.
Eu acho que dentro de 10 anos, pelo menos da forma que conhecemos, elas vão para o saco. E outras mídias vão seguir. E todo mundo vai sair ganhando.
O fato é, indústrias como essas operam em uma "área cinza" que é complicada por natureza - a interseção entre estar trabalhando com expressão, sentimentos, honestidade, ARTE, e a necessidade de fazer dinheiro. Como diz o Al Jourgesen, gravadoras são administradas por contadores de feijão, e não por pessoas que tem qualquer contexto artístico.
Isso significa que as gravadoras não se importam com a música que estão lançando. No fundo, gravadoras não tem NADA contra "arte" ou contra qualquer coisa que seja culturalmente/humanisticamente relevante: se vender, tá ótimo.
Acontece que, historicamente, tomaram o rumo mais óbvio e fácil de partir para o maior denominador comum. Não estou defendendo música "inteligente" ou "sofisticada" igual a maioria das pessoas cai quando argumenta sobre isso - mas estou defendendo música relevante, ou seja, por mais besta que seja (muitas vezes uma música só tem que divertir e só) que não seja a trilionésima repetição da mesma coisa, que tenha algum grau de criatividade e honestidade.
A relação entre criatividade e a facilidade de absorver a música costuma ser desfavorável porque o novo causa estranheza - então quanto mais manjado e "absorvível" a música mais pessoas vão gostar, pelo menos a curto prazo.
Some isso com o fato da maioria das gravadoras serem conservadoras e morrerem de medo de correr riscos e resultado: ligue o rádio e dê uma passeada pelas estações. Só isso. Entendeu?
Em defesa das gravadoras, se elas não querem falir precisam de fato ser conservadoras, porque o público é conservador. 99% das pessoas são zumbis culturais - não tem real interesse de se aprofundar em nada (aqui não estou falando só de música) a não ser o que tem impacto direto na sua vida - na maioria dos casos nem isso.
Ou seja, uma cidadão típico que trabalha com computação PODE se interessar por se aprofundar em Java (ou nem isso), mas está mais que satisfeito em ver só filmes que vai absorver com facilidade e esquecer meia hora depois, em não ler nada ou ler um livro por ano (também de fácil absorção e de preferência o mesmo que todo mundo está lendo), de ouvir só música igual e superficial que ele por acaso viu tocando no Faustão.
Para não cair na obviedade, registro aqui que, no fundo, na verdade não me importo com isso. Cada um tem a relação que quiser com cultura - e as pessoas que demandam algo mais profundo vão sentir falta em algum momento e acabar procurando sozinhas, independente do monopólio de poucas empresas na indústria cultural.
A gravadora vai colocar um disco do Capital Inicial que é uma merda mas vai vender para esses 99% ou vai apoiar um artista com mais conteúdo que vai agradar aos outros 1%?
Na verdade a gravadora poderia arriscar com os 1% se tivesse qualquer outro interesse além do foco em $ - para mim é a falha fundamental do capitalismo, o fato do dinheiro ser o ÚNICO e SOLITÁRIO estímulo para QUALQUER coisa acontecer - mas isso é outra discussão mais profunda ;-)
E às vezes arriscar funciona - prova é o fato de uma banda como o Radiohead que tem muitas tendências experimentais provocou colapso no sistema de telefonia da Austrália quando começou a vender ingressos para shows lá.
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quinta-feira, 19 de junho de 2008
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